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EMPATIA: cuidado com os filhos e o cuidado com a humanidade

EMPATIA: cuidado com os filhos e o cuidado com a humanidade

FLÁVIO RODRIGUES[1]

Como é possível entender: como a empatia se processa e como a presença de um adulto emocionalmente saudável é importante para a garantia de uma sociedade mais saudável?

A humanização e o processo civilizatório são sinônimos, e, podemos constatar historicamente que avançamos em todos os aspectos. À cerca de trinta anos estudantes surdos tinham, que se esconder em um banheiro para poder falar em LIBRAS – relato colhido para a pesquisa sobre semiótica e educação surdo; nesta mesma linha de raciocínio, pessoas com deficiência, não tinham direito de estar em um mesmo ambiente de pessoas sem deficiência, pessoas negras não tinham direito a sentar-se em qualquer lugar vazio em um ônibus nos Estados Unidos, deveriam sentarem-se nos lugares próprios para pessoas negras; Judeus, negros, ciganos, homossexuais e pessoas com deficiência foram considerados, humanos de segunda categoria.

A lista de barbárie é contínua, e essa lista não é uma lista de milhões de anos atrás. É uma lista de poucas décadas, que quando vivenciamos, aprendemos pela experiência negativa, e da pior forma, pela morte entes queridos ou de pessoas próximas. Em todos estes casos, pessoas que presenciaram a barbárie de perto, tem a tendência a não querer repetir, principalmente se sentiu na pele tais brutalidades.

O processo civilizatório é o oposto da instituição do instinto. O instinto deu lugar, segundo o Psicanalista Erich Fromm, ao caráter[1], uma evolução entre o animal humano e o Ser Humano. O comportamento instintual e as emoções, gerados por impulsos sensoriais (oriundos da visão, audição, tato, paladar, etc.) e somáticos (viscerais: sistemas, órgãos e organismo), compartilhamos com toda humidade, como também, com todos os animais e, por que não dizer, com toda a natureza. Porém, o processo civilizatório vai de encontro a tomada de consciência desses sentidos, desses sentimentos, vai de encontro à humanização do animal humano.

Estas reações, em um primeiro momento, são estados gerados no contato com o ambiente, seja este ambiente, social ou natural, sensações sem percepções que geram emoções que não são identificadas, porém, são vividas como ameaças reais – pânico, fobias, ansiedade, medo, etc. Este estado de inconsciência[2], como é chamado pelo Psicanalista Salézio Plácido, está mais perto de respostas irracionais, respostas instintivas, do que respostas aqui chamadas de respostas humanizantes.

As respostas irracionais, são características que nos aproximam de respostas primitivas, e, este primitivo não se trata de pensar em um indígena, mas de pensar no primitivo de respostas animalescas. Respostas que vão do medo paralisante da presa, à voracidade do predador, em ambos os casos, gerados pelo instinto de preservação, o primeiro de defesa e segundo de saciedade da fome – Gazela e Leão.

Emergir do estado de inconsciência é permitir que as respostas humanizantes possam ser uma alternativa as respostas irracionais. Ser humano é emergir[3] de respostas irracionais para respostas refletidas – mitos[4], cultura religiosa, leis e regras sociais[5], etc. O humano é o animal da alucinação, que alucina e faz do concreto algo imaginário, que vai do objeto até o pensamento e do pensamento até o objeto. Consegue ver no por do sol magia, que para os animais ou é hora de esconder-se ou sair para caçar. Faz da fogueira uma forma de confraternização, da morte um grande momento, em alguns casos de dor, em outros festividade, mas nunca de indiferença. Nessa alucinação do humano, viajamos pelo espaço, criamos fantasias e geramos a melhoria de nosso estar no mundo.

Quanto mais respostas humanizantes, maior é a possibilidade de gerar ambientes humanizantes. A empatia é a resposta dada pelo bebê à descoberta de que é um ser separado, que tem base no sentimento inicial de culpa que se constitui no contato com o cuidador na primeiríssima infância[6]. Esse contato entre um adulto saudável e o bebê se dá pelo compartilhamento, a figura materna dá aquilo que esse bebê necessita. Essa figura, dá pela simples satisfação de compartilhar, de suprir uma necessidade que não é sua, que é daquele outro ser que está se desenvolvendo, pelo amor que tem pela própria humanidade que vive naquele ser que se constituí com esse contato.

A empatia vai ser gerada nesse contato, de afeto, entre aquele que afeta e aquele que é afetado. Num ambiente saudável, este afeto é reciproco, ao mesmo tempo que a figura materna, afeta é afetada, ao mesmo tempo que o bebê afeta é afetado. Ambos sentem, ambos compartilham a humanidade, o cuidado entre ambos será pleno. Nesse primeiro instante, quem cuida dá ao cuidado atenção plena, sem nenhuma forma de cobrança, sem nenhum porque, apenas cuida, apenas dá.

Aquilo que foi instintual, começa a ser produzido pelo cuidado, pela delicadeza de cuidar do outro, de dar segurança a este outro. O animal humano, inicia a sua caminhada na humanização, na empatia produzida pela delicadeza do cuidado no toque, pela delicadeza do cuidado, que é fonte de amor. No lugar de respostas instintuais, de medo, raiva e culpa, as emoções de coragem, alegria e altruísmo se gerarão, a resposta será humanizante, pois quanto mais compartilhamos, mais compartilhamos. Quanto mais geramos emoções positivas, no ambiente íntimo, mais propagamos nos ambientes mútuos, fortalecendo o vínculo com aqueles que estão próximos.

O contrário também é possível, entretanto, a empatia é gerada nesse contexto inicial nos aproxima. Esse fator inicial, vai fazer com que possamos comemorar em momentos de afluência e que possamos colaborar em momentos de dificuldade. Embora, nossa tendência é pensar a humanidade pelo viés destrutivo, que disso que se trata este texto, podemos pensar na colaboração dos momentos de afluência e como os avanços foram destruídos pela tendência animalesca no animal humano. Várias culturas foram destruídas e outras se constituíram, em meio de destruição completa daquilo que havia sido construído, pela destrutividade, que se encontra neste estado de inconsciência.

Não podemos afirmar categoricamente a direção que tomaria a humanidade, se persas e não os Gregos tivessem prosperado. Não podemos saber se os Maias ou os Incas, tivessem tomado conta de toda a América teríamos uma sociedade avançada. Qual o caminho evolutivo teríamos tomado, se aquela ou esta civilização houvesse progredido, todavia, se pode afirmar com certeza que o caminho sempre seria o civilizatório. O caminho seria o da linguagem, do simbólico, do abstrato, do refletido, da fala, da busca pelo outro, da empatia. O caminho seria trilhado, e ainda pode ser, em direção do outro, a complexidade é que o outro tende ser meu reflexo. Porém, superado o estado de inconsciência, o outro é exatamente como o eu, partilhando o animal humano e o processo de humanização em direção a respostas humanizante.

Quanto mais proximidade a própria humanidade, como afirma, Funk[7], mais próximo do outro estaremos. Esse é o processo de humanização, a saída do estado de inconsciência para o estado de mais consciência, que não se trata de estar consciente em todos os momentos, mas sim, de estar consciente da própria humanidade que partilhada com todos. Quanto maior for a qualidade do tempo e a quantidade do tempo, com adultos saudáveis, melhor será a produção e promoção da empatia. O bebê cuidado, se torna uma criança que compartilha e cuida, assim como, um adulto que sente empatia por todos, já que se sente pertencente a um ambiente social.

A analogia entre ambiente natural, a selva, com o ambiente social, a sociedade, pode ser didática, entretanto é desumanizada. Não precisamos, nos proteger de nenhum predador, porque não somos presas, tampouco, predadores, somos humanos em contato com outros humanos. A sociedade de humanos, por menos complexa que possa parecer, aquelas consideradas primitivas, são complexas, com respostas complexas. O processo civilizatório vai em direção a empatia, embora por vezes, possamos não acreditar, mas sim, qualquer cultura está avançando para humanização, embora nossa capacidade de discernimento não perceba. O cuidado que temos com um bebê humano é um processo de empatia com toda humanidade, parafraseando Erich Fromm[8], ao cuidarmos de nossos filhos como amor estamos estendendo esse amor a toda humanidade. Não porque queremos algo em troca, mas sim pelo sentimento de amor gerado na empatia.

[1] Psicanalista, Especialista em Psicanálise Clinica, Membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise Humanista (SOBRAPH), Doutorando em Psicanálise Humanista pela Universidade Humanista das Américas (HUA), Docente do curso de Formação em Psicanálise em Santa Maria/RS e Membro do Sindicato dos Psicanalistas do Estado do Rio Grande do Sul.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

[1] FROMM, Erich. Rever Freud: Por uma outra abordagem em Psicanálise. São Paulo: Edições Loyola, 2013


[2] PEREIRA, Salézio Plácido. Consciência Emocional: Conhecendo a si mesmo. Vol I. ITPH. Santa Maria. 2018

________. Consciência Emocional: Inteligência Organísmica. Vol II. ITPH. Santa Maria. 2018

________. Consciência Emocional: Pessoa Saudável. Vol III. Ed. III. ITPH. Santa Maria. 2018


[3] RODRIGUES, Flávio. Nervuras: interação/comunicação e os processos resilientes. Santa Maria: ITPH, 2017


[4] RODRIGUES, Flávio. O Estudo Crítico na Psicanálise do Fenômeno da Alienação Religioso da Contemporaneidade. In: PEREIRA, Salézio Plácido; FRONER, Carla Cristina, (Org.). A interpretação dos Sonhos. Santa Maria: ITPH, 2013.


[5] RODRIGUES, Flávio. O Estudo Crítico na Psicanálise do Fenômeno da Alienação Religioso da Contemporaneidade. In: PEREIRA, Salézio Plácido; FRONER, Carla Cristina, (Org.). Transformação através da Psicanalise Humanista. Santa Maria: ITPH, 2011.


[6] WINNICOTT, D. The Piggle: relato do tratamento psicanalítico de uma menina. Rio de Janeiro: Imago, 1979

________. Natureza Humana. Rio de Janeiro: Imago, 1990

________. O Ambiente e os Processos de Maturação. Estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed, 2007

________. Holding e interpretação. – 3ª Ed. – São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010


[7] FUNK, Rainer. Life Itself Is an Art. The Life and Work of Erich Fromm. Translated: Susan Kassouf. Bloomsbury Academic: New York, London, Oxford, New Delhi & Sydney, 2018


[8] FROMM, Erich. A Missão de Freud. Uma análise de sua personalidade e influência. Belo Horizonte: Itatiaia, 1972.

________. Caráter social de uma aldeia: um estudo sociopsicanalítico. Rio de Janeiro: Zahar, 1972.

________. Ter ou Ser? Rio de Janeiro: Zahar, 1979.

________. A Linguagem esquecida. Uma introdução ao entendimento dos sonhos, contos de fadas e mitos. Rio de Janeiro: Zahar, 1980.

________. Psicanálise da sociedade contemporânea. 10ª Ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.

________. O medo a Liberdade. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.

­­­­________. Do amor à Vida: palestras radiofônicas organizadas por Hans Jürgen Schulttz. Rio de Janeiro: Zahar, 1986.

________. A descoberta do inconsciente social. Contribuição ao redirecionamento da psicanálise. São Paulo: Manole, 1992.

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