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NECESSIDADE DE RELACIONAMENTO : Estar só (condição humana) e sentir-se só (condiçãopsíquica)

Flávio Rodrigues 1

Psicanalista, Especialista em Psicanálise Clinica, Membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise Humanista (SOBRAPH), Doutorando em Psicanálise Humanista pela Universidade Humanista das Américas (HUA), Docente do curso de Formação em Psicanálise em Santa Maria/RS e Membro do Sindicato dos Psicanalistas do Estado do Rio Grande do Sul.


“O homem só pode unir o mundo inteiramente pessoal e individual de um lado, e o mundo público e social do outro, se ele puder preservar sua própria individualidade e singularidade, bem como fazer justiça às demandas e possibilidades da sociedade.” (FUNK 2 , 2018)


Por vezes as crianças nos surpreendem com sua “sabedoria”. Percebem muito cedo a condição humana de estar só, que por vezes, se torna uma condição psíquica de sentir-se só. Toda a

individualidade pressupõe: uma história, uma biologia, um ambiente natural e um ambiente social. Esse individuo se tornará saudável se conseguir estar só e mesmo assim, manter a conexão com o mundo que o cerca.

Os estudos sobre Resiliência nos contam essa história, que a resiliência não se trata de

algo que é individual, mas sim algo partilhado. A resiliência não se trata de um fenômeno pessoal isolado e autointitulado, “eu tenho que ser resiliente”, trata-se de um processo, que inicia antes mesmo do sujeito como indivíduo, inicia na estruturação do psiquismo. Neste caso, não se trata

apenas de genética ou de biologia, não se trata apenas dos cuidadores ou da condição social específica, trata-se de um processo multifatorial amplo, que possibilite processos resilientes.

Caso específicos podem explicar, situações específicas e não podem ser tomadas como

exemplo universal. Um jogador de futebol que sai de uma situação precária, uma criança que consegue ter êxito acadêmico, quando adulta, uma pessoa que supera uma doença especifica, são casos a serem estudados, entretanto, não podem ser consideradas regras.

No caso do jogador de futebol, o ambiente social é favorável para o desenvolvimento

desse talento (valor social); uma criança que poderia desenvolver seu talento acadêmico, sem o acesso aos instrumentos sociais que possibilitem o florescimento não poderá desenvolver-se; por fim, a superação de determinada doença sempre tem uma rede de apoio que pode ser tanto o (a) terapeuta 3 , os médicos, quanto pessoas amorosas que estão próximas a este ente querido 4 .

Quando uma criança afirma, “estamos com todas estas pessoas, mas estamos na

verdade sozinhos”, ela descobre a si mesmo e a coletividade. Descobre que está só, porém, não se sente só, sente-se segura consigo mesmo e com a companhia do outro. Sentir-se só, é a perda da esperança, viver as dores do presente, sem ter esperança ou alternativas mudanças. Para estar presente, no presente, é necessário que se tenha um ambiente partilhado, que transmita a segurança e essa segurança esteja entrelaçada em cada momento de desesperança, proporcionando a esperança nesse enlace.

A necessidade de relacionamento se constitui em uma necessidade básica para Fromm,

que é não instintual – quando se pertence a um grupo pela necessidade de segurança – mas sim, por uma necessidade ontológica de humanização, – quando o acolhimento gera a segurança interna necessária para gerar o pertencimento. Não é o individuo que se incluí ao grupo, mas sim, o grupo que acolhe o individuo e a experiência de acolhimento, fará com que este indivíduo constitua um Self verdadeiro 5 . A aversão ao indivíduo, gera estresse e esse estresse a desistência e mesmo que este indivíduo invista – choro insistente do bebê 6 –, o grupo determinará ou adoecimento do individuo ou a (auto) exclusão.

Sendo assim, a necessidade de relacionamento como algo legado ao indivíduo, é uma

necessidade de estar com e em um grupo por pertencimento. O primeiro grupo que este indivíduo fará parte, é a própria família e é este ambiente, por um lado natural e por outro social, que tornará o indivíduo um sujeito, que poderá mesmo em seu estar só (como condição humana), não se sentir só (como condição psíquica).

1 FROMM, Erich. Rever Freud: Por uma outra abordagem em Psicanálise. São Paulo: Edições Loyola, 2013.

2 FUNK, Rainer. Life Itself Is an Art. The Life and Work of Erich Fromm. Translated: Susan Kassouf. Bloomsbury Academic: New York, London, Oxford, New Delhi & Sydney, 2018.

3 PEREIRA, Salézio Plácido. A salvação do espírito: A alternativa na psicanálise humanista, para viver com saúde. Santa Maria: ITPH, 2019.

4 Reportagem do portal BBC: ROBSON, David. Os casos de 'cura milagrosa’ de câncer que intrigam a ciência. Publicada em: 26 mar 2015.

Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/03/150326_vert_fut_cura_milagrosa_cancer_ml. Acesso em: 20 Set 2019.

5 WINNICOTT, D. O Ambiente e os Processos de Maturação. Estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed, 2007.

6 RODRIGUES, Flávio. Nervuras: interação/comunicação e os processos resilientes. Santa Maria: ITPH, 2017.

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